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No dia a dia da prática farmacêutica, ainda observamos diversos equívocos sobre o uso seguro de medicamentos. Abaixo, compartilho alguns pontos essenciais que ajudam a orientar pacientes, reduzir riscos e promover o uso racional de medicamentos.
1. NEM TODO MEDICAMENTO INTERAGE COM ÁLCOOL
É comum ouvir que “não pode misturar medicamento com bebida alcoólica”. Embora a recomendação seja válida como regra geral, sobretudo por questões de segurança, a realidade é um pouco diferente do que se imagina.
Algumas classes realmente apresentam contraindicação formal ao uso concomitante de álcool, como:
- Antidepressivos tricíclicos
- Benzodiazepínicos e hipnóticos
- Antipsicóticos
- Opioides
- Metronidazol e derivados nitroimidazólicos
- Anticonvulsivantes
- Antidiabéticos orais específicos (ex.: sulfonilureias)
Outras classes, porém, apresentam risco mínimo ou irrelevante de interação, especialmente quando o uso é eventual e moderado. A recomendação técnica deve considerar dose, frequência, condição clínica do paciente e o perfil farmacocinético da molécula.
Na dúvida, procure conversar com um Farmacêutico(a)!
2. ANTIBIÓTICO NÃO TRATA GRIPE
Ainda é recorrente a ideia de que antibióticos são úteis para tratar gripes ou resfriados. Isso é incorreto!
Antibióticos atuam contra bactérias (e alguns parasitas).
Gripes e resfriados são infecções virais, e quando existe tratamento específico, ele é feito com antivirais, prescritos em situações específicas (grupos de risco, quadros graves, influenza confirmada, entre outros).
O uso inadequado de antibióticos contribui para eventos adversos, resistência bacteriana e redução da eficácia terapêutica futura.
3. NEM TODOS OS MEDICAMENTOS PODEM SER ARMAZENADOS FORA DO BLISTER
A prática de separar medicamentos em porta-comprimidos é comum, mas precisa seguir critérios.
De forma geral:
- Podem ser armazenados fora do blister sem perda significativa de estabilidade: cápsulas rígidas, drágeas e comprimidos revestidos.
- Não devem ser retirados da embalagem primária: comprimidos não revestidos, comprimidos efervescentes, sublinguais, orodispersíveis, pastilhas, dispersíveis e medicamentos sensíveis à umidade ou luz.
Nesses casos, quando houver necessidade de organização por horários, o ideal é individualizar cada dose mantendo-a dentro de sua bolsinha plástica original (quando disponível) ou utilizar porta-comprimidos apenas se houver confirmação de estabilidade pelo fabricante.
4. FARINGITE QUE MELHORA UM DIA APÓS BENZETACIL PROVAVELMENTE NÃO ERA BACTERIANA
A penicilina benzatina (Benzetacil) não é indicada para tratar a maioria das faringites, e sua ação é lenta, pois é uma formulação de liberação prolongada. Quando um quadro de dor de garganta melhora em 24 horas após a aplicação, isso indica que a causa provavelmente era viral ou apenas uma irritação autolimitada, e não uma infecção bacteriana estreptocócica.
Faringites bacterianas verdadeiras têm evolução e resposta terapêutica diferentes, e seu diagnóstico deve seguir critérios clínicos e epidemiológicos específicos.